sexta-feira, 1 de março de 2013



                              Tudo o que Valéria sempre soube. 

Valéria me acordou às oito da manhã em pleno sábado com gritarias no portão, queria me dizer idiotices pelo ouvido através da grade. Valéria sabe que não dou cabimento a meninas de colégio, mas ela insiste em se fazer gente pra mim, e eu insisto em nem pensar no caso.

Durante a semana eu tenho uma puta correria, é um vai pra aula sem caderno e sem caneta, com um buraco no tênis, isso quando não vou de chuteira. É tal de fingir escutar, fingir ligar, fingir rir, que termino dormindo no canto da sala, principalmente nas aulas de trigonometria. Eita assuntinho circular. Sim, mas me deixe falar de Valéria.

Valéria, como vocês devem ter entendido na frase lá em cima, é uma menina lá da escola, duas series inferiores a minha; tem um perfume leitoso, uma mão barrenta, uns olhos de coruja focados em um rato sonolento. Um saco de menina, e infelizmente mora a dois quarteirões da minha casa.

Valéria, apesar de me encher o saco, tem feições delicadas que acalmam até a estupidez de se ter obrigado a sair da cama quente às 08 da manhã, só para escutar uns ruídos molhados no ouvido, que não eram entendíveis não só pela hora, que me traz sonolência e demência, mas porque Valéria é meio fanha, meio sem força. Não me importo com ela.

Fui bater uma peladinha na terça pela manhã num campinho de outra escola estadual que tem no meu bairro, estudo à tarde e só ouso sair de casa pela manhã quando tem uma peladinha. Não sou amigo de nenhum dos meninos, mas faço minha festa particular. Dou-lhes motivos de riso e riu deles mesmo. Em cinco minutos de jogo estava morto, essa estória de ser meia-atacante não está dando certo, meu folego sempre foi de merda, mas agora quando mais me movo, mais fede minha fraqueza.

Deixei o time de lado, me retirei do campinho e fui queimando meus pés na calçada com a chuteira pendurada pelos cadarços em minhas costas. Não sou de levar caderno, não escrevo e durmo nas aulas, mas de alguma forma eu entendo tudo a minha volta, não tiro nota baixa, sei de todos os assuntos, e sei com perfeição também as tarefas que devo realmente por em papel, e com essa desculpa eu voltei para casa, fingindo que os meninos supuseram isso que pensei e que estava tudo bem.

- Cícero, ô Cícero, vai mais devagar, quero te dar algo.
- Cícerroooooooo, ô Cíceroooooo.

Quando escutei o grito fanho de Valéria o chão pôs meus pés em brasas. Saí correndo em desespero, e só me encontrei dentro de meu corpo, junto com a alma ,quando pude me sentar nas cadeiras de plástico perto da piscina no fundo da casa, livre de qualquer verborragia.

Vocês devem pensar que Valéria me ama e eu sou um cara idiota, babaca. Um bobão. Mas estão errados. Valéria não me ama, e eu não estou na idade de amar. Decidi aos meus sete anos amar apenas aos trinta, só para servir de bom exemplo a tradição da família biológica humana. E ainda falta mais que um tantão para eu chegar lá, sem pressa, sem correria. Só me afogo nesse sufoco de Valéria, mas tanto faz não me importo.

Em plena semana de provas minha mãe me perguntou a quanto andava minhas notas, disse que responderia quando tivesse o resultado, afinal, era inicio de ano. Mãe são tão bobas como cachorros, são bonitos, fofinhos, mas não entendem de nada. 

No final da semana de prova tive duas boas notícias, uma completamente óbvia, minhas notas permaneceram com a qualidade do ano passado, e a outra de que Valéria iria se mudar para outra cidade, uma ou duas horas da capital de onde vivíamos. De repente, ao ouvir a notícia da boca de sua melhor amiga, a Cristina, essas boas notícias. Senti no meu rosto um comichar estranho, meu cabelo imexível se bagunçou. Minha franja caiu de lado meio morta, eu sorri com uma felicidade comprada, premeditada pelas minhas rezas.

Valéria, como eu já disse, tem feições delicadas, daquelas de lhe tirar da cama em pleno sonho bom, de fazer correr em um sentido oposto ao dela sem entender direito o porque. De...

Valéria se deu mal nas provas, e para comemorar o seu adeus do bairro das infâncias ofereci  ajuda-la antes de partir. Eu não poderia deixar de fazer minha festa particular. De sentir o cheiro de nata quente de suas bochechas rosadas, De....

No final de duas semanas e de sua partida eu odiei Valéria com mais força do que os últimos quatorze anos, e passei a contar os dezesseis  que me faltava para me casar com ela.